Júri condena à prisão, por maioria de votos, os 4 réus que mataram alemã
Delma Freire, mentora intelectual do crime, teve maior pena: 32 anos.
Jennfier Kloker foi morta em fevereiro de 2010, em São Lourenço da Mata, PE.
"Foi pena máxima, não poderia estar mais satisfeito", disse
o promotor André Rabelo (D) (Foto: Katherine Coutinho / G1)
o promotor André Rabelo (D) (Foto: Katherine Coutinho / G1)
Foi lida pela juíza Marinês Marques Viana, por volta das 17h30 desta
quinta-feira (13), a sentença que condenou Delma Freire de Medeiros,
Pablo Tonelli, Ferdinando Tonelli e Dinarte Dantas de Medeiros pela
morte da turista alemã Jennifer Kloker, 22 anos, em crime ocorrido em
fevereiro de 2010, em São Lourenço da Mata, no Grande Recife.
Delma, sogra da vítima, foi condenada a 32 anos de prisão; Pablo e
Ferdinando, respectivamente marido e sogro da alemã, foram condenados a
25 anos e seis meses de reclusão. Dinarte de Medeiros, beneficiado pela
delação premiada, foi condenado a 14 anos e 4 meses de reclusão.
"Os jurados resolveram acatar na íntegra as denúncias do Ministério
Público e rechaçaram as teses das defesas por maioria de voto", disse a
juíza. Os quatro réus foram condenados por formação de quadrilha e
homicídio duplamente qualificado – por motivo torpe e sem chance da
vítima se defender. Delma Freire foi condenada também por um terceiro
crime, fraude processual. "As circunstâncias em que ocorreram o crime
foram desumanas. A ré agiu com evidente dolo e as consequências são
irreparáveis", comentou a magistrada.
Após a leitura da sentença, o promotor André Rabelo requereu à justiça o
cancelamento das três certidões de nascimento que Pablo Tonelli tem no
Brasil, o recolhimento dos passaportes dos três que viviam na Itália e a
comunicação da decisão à embaixada do país europeu. "Ela realmente
aplicou a pena de acordo com todas as condições legais", disse a
promotora Ana Cláudia Walmsley Paiva. "Estou satisfeitíssima. Era o que
esperávamos", comemorou a delegada Gleide Ângelo.
Além dos quatro réus que foram julgados pelo crime, cometido em 2010,
há um quinto envolvido: Alexsandro Neves dos Santos, acusado de ter
atirado e matado Jennifer, teve o julgamento adiado para 27 de fevereiro
de 2013 porque o advogado dele ficou doente.
Recursos
Por causa da delação premiada, Dinarte de Medeiros vai recorrer da condenação em liberdade. "Vamos analisar a sentença como um todo, mas achamos a pena dele exacerbada, devido a algumas omissões", disse o advogado Félix Santos.
Por causa da delação premiada, Dinarte de Medeiros vai recorrer da condenação em liberdade. "Vamos analisar a sentença como um todo, mas achamos a pena dele exacerbada, devido a algumas omissões", disse o advogado Félix Santos.
O defensor de Delma Freire, José Carlos Penha, também vai recorrer da
sentença. "Vou entrar com recurso para diminuir a pena e para que Delma
seja inocentada por formação de quadrilha e fraude processual. Estou
muito triste e decepcionado, porque não há provas para a formação de
quadrilha", lamentou.
não decidiu se vai recorrer (Foto: Vanessa Bahé / G1)
Os advogados de Pablo e Ferdinando Tonelli ainda não decidiram se vão
recorrer. "Temos cinco dias para apelar. Quem decide se tem que recorrer
é o cliente e ainda não conversamos reservadamente com eles. Depois
disso, vamos ver se eles estão insatisfeitos. O máximo de pena que
poderia ocorrer não foi alcançado", disse Rodrigo Almendra.
Segunda-feira
O julgamento começou na segunda-feira (10), com a escolha dos jurados que formariam o Conselho de Sentença, responsável pelos votos que condenariam ou absolveriam os réus ao fim do processo. Também na segunda, à tarde, as testemunhas de acusação foram ouvidas: os delegados Gleide Ângelo e Alfredo Jorge, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e responsáveis pela investigação do crime.
O julgamento começou na segunda-feira (10), com a escolha dos jurados que formariam o Conselho de Sentença, responsável pelos votos que condenariam ou absolveriam os réus ao fim do processo. Também na segunda, à tarde, as testemunhas de acusação foram ouvidas: os delegados Gleide Ângelo e Alfredo Jorge, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e responsáveis pela investigação do crime.
Terça-feira
Na terça-feira (11), começou a ouvida dos réus. A primeira a depor foi Delma Freire de Medeiros. Nesse dia, ela limitou-se a dizer que a imprensa havia feito dela um monstro e a responder algumas poucas perguntas da juíza, sem assumir participação em nada. Na sequência, depôs Pablo Tonelli, filho de Delma e viúvo da vítima. Ele confessou ter participado do crime e disse que a morte foi tramada por Delma Freire. "Se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria. Era a mãe do meu filho", afirmou.
Na terça-feira (11), começou a ouvida dos réus. A primeira a depor foi Delma Freire de Medeiros. Nesse dia, ela limitou-se a dizer que a imprensa havia feito dela um monstro e a responder algumas poucas perguntas da juíza, sem assumir participação em nada. Na sequência, depôs Pablo Tonelli, filho de Delma e viúvo da vítima. Ele confessou ter participado do crime e disse que a morte foi tramada por Delma Freire. "Se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria. Era a mãe do meu filho", afirmou.
No entanto, ele alegou que cometeu o crime porque era traído por
Jennifer, que seria uma pessoa agressiva - "batia no meu filho,
espancava minha avó, me traía, se prostituía e ameaçava tomar meu
filho", afirmou, durante o depoimento. Pablo Tonelli também assegurou
desconhecer o seguro de vida que Ferdinando Tonelli, seu pai adotivo,
havia feito em nome dele e de Jennifer - e do qual o próprio Ferdinando
seria o beneficiário. Pablo Tonelli se negou a dizer, ainda, o nome do
homem que fez os disparos que mataram a alemã.
Na tarde da terça-feira, foi a vez de Ferdinando Tonelli depor. Ele
garantiu que não teve qualquer participação no crime. "Fiz o seguro para
o meu neto. Fiz uma escritura pública destinando para o meu neto todos
os meus bens, nada para Delma, Pablo, meus primos. Estão me acusando por
causa do seguro, mas quero deixar bem claro que fiz o seguro visando o
meu neto. Se soubesse que essa informação se voltaria contra mim, eu nem
teria falado sobre isso à polícia", disse ele, que é italiano e pediu a
presença de um intérprete para o depoimento. Ferdinando também se negou
a dizer o nome da pessoa que entrou no carro em que a família estava e
fez os disparos contra Jennifer.
Ferdinando Tonelli também fez comentários sobre a personalidade de
Jennifer Kloker, dizendo que ela era nervosa, gostava de fazer os outros
gastarem dinheiro com ela, às vezes era agressiva com a criança e
aparentava usar drogas. Afirmou que a alemã agrediu a mãe dele em uma
oportunidade. Comentou ainda que Pablo teria batido em Jennifer uma vez
porque ela quis separar-se dele para viver, junto com a criança, com um
homem que conheceu em um cabaré.
O quarto réu a prestar depoimento no júri do caso Jennifer Kloker foi
Dinarte Dantas de Medeiros. Como já tinha feito na época, Dinarte
confessou ter participado do crime "até um certo ponto", mas se disse
arrependido e falou que não sabia nada sobre o seguro de vida que teria
motivado o assassinato. “Eu participei na união dos dois [Delma e
Alexsandro] e na compra da arma. Eu não sabia de nada de dinheiro de
seguro. Procurei depois a polícia por arrependimento. A Bíblia diz que
não podemos tirar a vida de ninguém. Quem tem coração sabe”, afirmou.
Ele também contou que sabia que o plano era matar Jennifer Kloker e
queimar o carro e disse que não estava nada acertado de ele ir buscá-los
depois do crime.
Ao término do depoimento de Dinarte, os advogados de Ferdinando Tonelli
solicitaram à juíza que ele fosse ouvido novamente, pedido que foi
aceito sob protestos da defesa de Delma Freire. Na nova chance para
depor, ele mudou o que havia dito inicialmente. “Eu sabia que Jennifer
tinha que morrer, só não sabia quando, onde e como. Desde a Itália ouvia
que Delma queria matar Jennifer. Sabia que ela estava tramando algo”.
José Carlos Penha, advogado de Delma Freire
(Foto: Katherine Coutinho/G1)
(Foto: Katherine Coutinho/G1)
Perguntado se havia recebido algum advogado pedindo que enão
confessasse o crime, Ferdinando disse que sim. “Eu me sinto responsável
pela morte dela. Acho que podia ter feito alguma coisa para evitar
isso”, disse o italiano. Ele afirmou não ter participado de nenhuma
reunião para tramar a morte de Jennifer Kloker. “Nos momentos de raiva,
quando Jennifer não cuidava bem da criança, Delma dizia que ia matá-la”,
contou à juíza.
Quarta-feira
Na quarta-feira (12), quando a sessão deveria abrir a fase do debate com a fala da promotoria, dois réus pediram autorização à juíza para falar novamente. Pela primeira vez, então, Ferdinando Tonelli e Delma Freire de Medeiros confessaram seus papéis no crime. Ela admitiu ter esquematizado a morte da nora, em conjunto com o marido e o filho, Pablo Tonelli, em um plano elaborado ainda na Itália. "Fiz tudo isso por amor ao meu filho e à minha família. Eu não ia falar nada disso, mas não ia conseguir dormir. Queria pedir desculpas à sociedade pela mentirosa que eu sou. Hoje em dia não agiria assim", afirmou Delma. Ferdinando Tonelli havia confessado envolvimento no crime pouco tempo antes, em seu terceiro depoimento.
Na quarta-feira (12), quando a sessão deveria abrir a fase do debate com a fala da promotoria, dois réus pediram autorização à juíza para falar novamente. Pela primeira vez, então, Ferdinando Tonelli e Delma Freire de Medeiros confessaram seus papéis no crime. Ela admitiu ter esquematizado a morte da nora, em conjunto com o marido e o filho, Pablo Tonelli, em um plano elaborado ainda na Itália. "Fiz tudo isso por amor ao meu filho e à minha família. Eu não ia falar nada disso, mas não ia conseguir dormir. Queria pedir desculpas à sociedade pela mentirosa que eu sou. Hoje em dia não agiria assim", afirmou Delma. Ferdinando Tonelli havia confessado envolvimento no crime pouco tempo antes, em seu terceiro depoimento.
Segundo Delma Freire, tanto Pablo quanto Ferdinando sabiam que Jennifer
ia ser morta. Ainda na Itália, ela conta que Pablo e Ferdinando não
sabiam mais o que fazer para lidar com Jennifer – Delma repetiu a versão
contada por Ferdinando, de que a alemã usava drogas, traía Pablo e
espancava o filho. “Então eu disse aos dois para matar. Eles ficaram
meio assim, mas como eu sou cabeça de tudo, meio que obriguei eles a
aceitar”, falou.
Acusação x defesa
Após as novas revelações, ainda na manhã da quarta-feira, começou a fase dos debates, com a fala dos representantes do Ministério Público de Pernambuco. Os promotores André Rabelo e Ana Cláudia Walmsley Paiva pediram a condenação dos quatro réus. Durante três horas - o máximo permitido eram quatro - eles defenderam seus argumentos. "[O fato de] Não estar na hora do crime não diminui a participação", disse Rabelo. “Eles estavam certos de que iam creditar esse crime à violência urbana brasileira, mas não foi o que aconteceu”, comentou a promotora.
Após as novas revelações, ainda na manhã da quarta-feira, começou a fase dos debates, com a fala dos representantes do Ministério Público de Pernambuco. Os promotores André Rabelo e Ana Cláudia Walmsley Paiva pediram a condenação dos quatro réus. Durante três horas - o máximo permitido eram quatro - eles defenderam seus argumentos. "[O fato de] Não estar na hora do crime não diminui a participação", disse Rabelo. “Eles estavam certos de que iam creditar esse crime à violência urbana brasileira, mas não foi o que aconteceu”, comentou a promotora.
Para os promotores, os quatro réus tentaram, em seus depoimentos,
transmitir a imagem de Jennifer como uma pessoa agressiva, usuária de
drogas, que traía o marido (Pablo). “Agora que a moça morreu e está
enterrada, ela é o monstro. Essa moça foi vítima, ela sonhava em voltar
para a Alemanha, chegou a juntar dinheiro trabalhando e foi surrupiada
por essa família. Ela só queria defender o filho”, argumentou. “Vocês
não acabaram só com a vida de Jennifer, acabaram com a vida dessa
criança, que nunca mais vai esquecer que um homem deu três tiros no
peito da mãe”, declarou o promotor André Rabelo. “Eles não pouparam essa
criança. Se não pouparam a mãe, podiam ter poupado o menino de ver o
crime. Jennifer não era um monstro”, disse Ana Cláudia.
Exaltado, o promotor André Rabelo disse que desde o início tinha
certeza de que a verdade ia aparecer. “O Ministério Público pede o que a
lei afirma, que eles sejam condenados pelos crimes”, falou. “Não há
nada nesses autos que prove que Jennifer era prostituta. E mesmo que
fosse, não era motivo para matá-la”, disse ele, exaltado. Rabelo disse
que espera cada um pague por sua culpa e que espera que nunca durmam em
paz por ter tirado a vida da jovem. "Não se mata por amor", disse.
Defesa x acusação
Tentando limitar a punição dos quatro réus, os advogados não usaram todo o tempo de que dispunham para apresentar suas teses. De maneira geral, eles tentaram enfraquecer a acusação de formação de quadrilha e a motivação para o homicídio - para a polícia e o Ministério Público, matar para obter o seguro em nome da vítima, é considerado motivo torpe. No caso de Delma Freire de Medeiros, sogra de Jennifer, o defensor também tentou livrá-la do crime de fraude processual. Em relação a Dinarte Dantas de Medeiros, os advogados argumentaram que a participação dele, dentro do contexto do crime, foi menor.
Tentando limitar a punição dos quatro réus, os advogados não usaram todo o tempo de que dispunham para apresentar suas teses. De maneira geral, eles tentaram enfraquecer a acusação de formação de quadrilha e a motivação para o homicídio - para a polícia e o Ministério Público, matar para obter o seguro em nome da vítima, é considerado motivo torpe. No caso de Delma Freire de Medeiros, sogra de Jennifer, o defensor também tentou livrá-la do crime de fraude processual. Em relação a Dinarte Dantas de Medeiros, os advogados argumentaram que a participação dele, dentro do contexto do crime, foi menor.
José Carlos Penha, advogado de Delma, se ajoelhou diante dos jurados
para pedir "justiça justa". "Eles confessaram o crime, mas levar para o
lado da formação de quadrilha ou trazer elementos de provas falsas ao
processo não existe. Peço desculpas, mas houve manobra da polícia. Uma
mãe faz tudo por um filho, dá a cabeça e o pescoço, isso é o papel de
pai ou de mãe. Venho pedir aos senhores que votem de forma justa, mas
falsear provas, formação de quadrilha, não", encerrou.
Rodrigo Almendra, advogado de Pablo e Ferdinando Tonelli, tentou
mostrar que a motivação para o crime foi a posse da criança e não o
dinheiro do seguro. "A polícia diz que o motivo foi o seguro, mas as
pessoas envolvidas não sabiam da existência do seguro. E até cachorros
têm seguro na Itália. O seguro foi feito um ano e meio antes da morte e
essa foi a quarta viagem dela [Jennifer] ao Brasil. Ferdinando não
precisava desse dinheiro, porque, para os padrões do Brasil, ele era
rico. Os galpões que ele tinha valiam mais que o seguro", disse o
advogado.
Félix Santos, advogado de Dinarte, achou a pena
exacerbada (Foto: Katherine Coutinho/G1)
exacerbada (Foto: Katherine Coutinho/G1)
Por outro lado, as disputas dentro de casa pelo filho de Jennifer e
Pablo teriam sido a origem para o homicídio. "Há informações de que
Jennifer teve problemas com a justiça alemã, sim. Com essa vida dos
dois, a criança passou a ser a alegria da familia. Só que existiram
brigas constantes entre Delma e Jennifer, a instabilidade na família era
grande. Nas brigas, Jennifer dizia que ia embora com a criança, havia
essa disputa. Planejou-se a morte no Brasil porque se pensou que,
talvez, aqui seria mais fácil. Matar para ter um filho não é motivo
torpe", concluiu.
Félix Santos e Félix Filho, defensores de Dinarte Dantas de Medeiros,
reforçaram o fato de o réu ter procurado a polícia espontaneamente. "O
único que confessou e esclareceu com detalhes foi Dinarte. Não foi uma
simples colaboração com a polícia, foi efetiva. Ele foi muito importante
e, em momento nenhum, teve a promessa de algum benefício pela
colaboração dele. Responder em liberdade é um direito, não um benefício.
Cada um tem que responder na medida da sua responsabilidade
FONTE G1 PE
Nenhum comentário:
Postar um comentário